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O grande gadget dos camaradas comunistas

Quem fez a arte de divulgação do grande gadget foi o El Lissitzky, mas ninguém entendeu nada na época

Quem fez a arte de divulgação do grande gadget foi o El Lissitzky, mas ninguém entendeu nada na época

Gente, já aviso, o post é grande, em boa parte meu-querido-diário, mas eu prometo que eu chego em um ponto. Quem quiser pular a parte pessoal, vá descendo até chegar a imagem do camarada Gagarin.

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No começo de 2006 lá estava eu em Akihabara procurando por um denshi disho. Na minha mente, o dicionário eletrônico ideal para o japonês deveria vir com uma tela touchscreen e uma caneta para poder escrever aqueles caracteres bizarros ao invés de procurá-los manualmente, à maneira dos velhos dicionários de papel (nem queiram que eu explique aqui como é, só isso já faria todos morrerem de tédio com esse texto de início meramente pessoal). Só que, como eu disse, era só na minha mente. Até então não existia esse tipo de dicionário eletrônico.

Mas não é que eu me deparo com uma ferramenta chuchuzinha, que se auto nomeava PDA: personal digital assistante. Seu nome próprio era Zaurus, uma finada linha da Sharp de computadores de bolso. Vinha com um Linuxespecial para o aparelho e tinha exatamente o que eu queria: uma baita ferramenta de inserção e um dicionário dos bons.

Meus estudos de japonês evoluíram muito depois dessa bugiganga. Mas aí eu fui vendo o que vinha a mais: tinha um senhor HD interno, tinha suporte para MP3, um processador de texto, outro de tabelas, leitor de PDF. Com uma mini placa wi-fi que você comprava baratinho era ainda possível acessar e-mail e web (de forma bem porca, sem JavaScript, sem nada). A transferência de dados era por USB ou pela magnífica tecnologia do infravermelho (que obviamente eu nunca usei).

Quando aberto, lembrava um notebookzinho, mas a tela girava e ele virava o que então chamávamos de palmtop. Lindo, lindo.

Só que a história não tem um final feliz. Meu primeiro passo de portabilidade aos poucos foi sendo deixado de lado. Como o calendário não sincronizava com nada, parei de usar. GMailficou difícil. Parei de estudar japonês. Saiu de linha e não havia mais aplicativos para ele. Eis que em 2009, ele nunca mais ligou e aí foi aposentado mesmo.

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Um ano antes do Zaurus morrer, fui de novo para o Japão, quando a febre dos netbooks estava em seu auge. Por lá, os preços eram absurdamente baixos e vendia-se bastante principalmente para estudantes universitários. Aproveitei o ensejo e comprei um Eee PC, do qual escrevo agora. Demorou para me adaptar às teclinhas pequenas e o touchpad terror, mas ele me surpreendeu com sua alta duração de bateria (em especial por conta dos SDD), leveza e portabilidade.

A ideia era que ele me servisse como computador de freelancer. Ou seja, eu poderia escrever matérias de onde eu quisesse, fosse na minha sala, no banheiro (oi?), no interior, na rua, na chuva (melhor não), na fazenda ou numa casinha de sapê. Mas aí eu arrumei um emprego fixo e acabei me esquecendo dele.

Aproveitei aquele pobre abandado e inventei de instalar um Chrome OS que eu achei na internet (uma boa experiência, que vale um outro post), mas acabei me rendendo novamente às delícias do bom e velho Windows XP.

O que mais me incomoda nele agora? A tela. Pequena (nove polegadas) e com baixa resolução (desculpem, mas 1024 x 768 é baixa, vai?), ela se revela um entrave para quem quer ler um texto longo – haja page down.

Comecei a girar a tela (não fisicamente, ok?), coisa que o próprio drive permite. Ficou uma beleza para ler textos, PDFs e tudo que era longo. Na mão, parecia um livrinho. Mas ainda havia um problema: a tela girava, o touchpad, não. Eis que eu descubro o Eee Rotate, um programinha aí que, ao rodar a tela, roda também o sentido do mouse. Beleza, estava ali feito meu pequeno e-reader.

Claro que sobrou uma frustração: o teclado ao lado da tela.

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Até ano passado, tablet para mim era aquele troço que você colocava no lugar do mouse e que, com uma caneta, desenhava lindamente no Photoshop. Eis que lá pelos idos de 2009, uma amiga quis me vender uma dessas básicas, mas boas, a um preço módico. Comprei, porque editar imagens no mouse às vezes dói.

No começo, desastre. Ícones eram arrastados para locais indevidos, manchas surgiam nas fotos, janelas paravam em outras dimensões. Mas um tempo depois, assim como o mini-teclado do Eee PC, usar a caneta parecia magia. Lindos desenhos (nem tanto), imagens retocadas com classe (aí sim) e vetorização em minutos. Mas era só dar alt cmd + tab que o caos voltava a reinar.

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Aí agora, em 2011, me pergunto: poxa, não dá pra juntar a tablet, o Zaurus e o Eee PC em uma coisa só?

Saudações, camarada. Parabéns para quem leu até aqui e bem-vindo para quem pulou direto. O que eu queria anunciar que esses problemas de insatidfação estão terminados. O mundo agora seguirá para um grande e único gadget, que a partir de agora chamaremos de o grande gadget do camarada comunista. Garanto que é o que todo mundo quer. E se não queria, vai passar então a querer.

O grande gadget do camarada comunista (vamos simplificar: G2C2) vai além da profecia de que os tablets (no sentido do iPad, Xoom etc.) vão substituir desktops e notebooks. O G2C2 vai substituir tudo: seu desktop, seu notebook, seu netbook, sua tablet, seu e-reader, seu celular, seu mp3 player, sua câmera de bolso, enfim, tudo aquilo que não é específico demais (ou seja, não vai substituir sua câmera de vídeo profissional, sua DSLR ou seu scanner de mesa, mas quem é que precisa disso todo dia?).

O G2C2 vai ter um sistema operacional único e open source com suporte a aplicativos do iOS, do Android e até mesmo do Symbian. Roda .exe, programas de Mac, Linux, tudo.

O G2C2 vem com uma tela touch screen que funciona tanto com o toque dos seus dedos como de uma caneta. Ou seja, seja pela facilidade ou pelo detalhe, é possível manusear. Há também um teclado acoplado, mas como a tela é giratória, você escolhe se você quer que o G2C2 seja mais um e-reader ou um netbook. As saídas USB ainda permitem que você opte pelo bom e velho mouse.

E ainda: leitor de cartão, wi-fi, bluetooth, 3G, GPS, acelerômetro. Três dimensões, não, que isso é coisa de americano vendido.

Certamente você já viu 387593548 propagandas por aí prometem os mundos e fundos do mais alto e puro creme da tecnologia de ponta, mas você ainda não consegue ter tudo ao mesmo tempo: precisa de vários gadgets diferentes. Com o G2C2, não. Você tem.

Aí você se pergunta: quem se interessaria em produzir um único aparelho? A Apple poderia já tê-lo feito numa boa (claro que sim, vai, nem vem), mas quer que a gente compre iPod, iPad, iPhone, MacBook e até aquela coisinha da Apple TV. A Sony também. E algumas outras, com muito esforço. Mas ninguém quer. Ninguém vai.

Por isso estamos propondo um gadget produzido pelo estado, a fim de promover uma real democratização tecnológica. Afinal, seria lindo que todos nós, camaradas proletários, tivessem esse lindo G2C2. Sem problemas de compatibilidade, sem concorrência, tudo produzido por nós e para nós, tudo em um só bolso, sem precisar carregar quilos com você.

Por enquanto é o meu grande sonho de consumo. Mas pode ser o seu. Pode ser o nosso. Pode ser utópico, mas me deixa.

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